quinta-feira, 13 de julho de 2017

detroit

                                                        andrejcaetano
o tempo é uma pista
uma faixa
uma listra
uma linha
o tempo é um risco

iguana grávida engarrafada
impregnada de má sinalização
de momento-curva
impossibilidade de correção
tempo-tempo
William Egglestone

sexta-feira, 7 de julho de 2017

foi assim que a manhã despertou

longa garantia floresceu de manhã
quando o primeiro ônibus passou.
amanheceram escolares. mães
balançaram seus corpos e respingaram
tarefas. daniele pensou que foi
bom estabelecer certa distância de
suas penas. já era hora. um corcunda
dito josonor era coveiro e recém
chegada de frança afrodite sentiu falta
do metrô. jornalistas seguiram
empenhados atrás do rumo do
extravio. pois foi por isso que uma
esbelta preguiça se levantou e
esfumaçou [só o asfalto conhece os
seus bichinhos]. não há dúvida na
chuva foi o que comprovou o porteiro
da noite e ficou muito satisfeito em
sentir a certeza. foi assim que
o primeiro ônibus passou e viu
sorriso na boca de um insone
florescendo com a manhã. um dia a
gente desabrocha mesmo que seja
machado
 andrejcaetano

segunda-feira, 26 de junho de 2017

entomologia poética

alexandre – pródigo homem de conquistas –
tanto relativizou invasões
que morreu um cactus

o castiçal de baudelaire alumiou o lusco-fusco da aurora borealis
baudelaire era o tal surfista prateado

fábio máximo tanto relativizou aníbal
que foi aclamado en circus
e morto na própria ronda

das quasi-simbolism de rimbaud ist mute
rimbaud fructus

césar – um talento para avaliações –
tanto relativizou a família
que pariu um brutus

mallarmé tem o poder de andar com a arma destravada
mallarmé...depois veio quem?
andrejcaetano
Josef Koudelka

domingo, 25 de junho de 2017

pique-esconde

energia preciosa despendi para provar-me que sonetos são peçazinhas de bordar
quão bobo

não mereciam nem meio regurgito de minha babaquice
pós-prandial

o grande lance sempre foi brincar de roda
pegadô

estupidi-ficar
como bom estupidi-ficador                                    andrejcaetano
Malick Sidibé

sexta-feira, 2 de junho de 2017

gênero ii

a mulher olha o deserto e diz
‘léguas’

eu sou moléculas de homem
prazer tem prazo e alegria tem nome
andrejcaetano
Simon Procter

segunda-feira, 24 de abril de 2017

fado

foi a digressão de uma mulher dirigida a um homem cego que disse:
‘meu amigo, o sexo oposto tu és’

e o moço, encantado com tamanha objetividade, propôs:
‘mudemos os planos cartesianos com plantinhas no parapeito da sacada de nosso lar

luzes quando escurecer! brincadeiras quando o breu se der!’
que ela replicou mansinha: ‘olha, o fado é que sofejará de longe o seu bafo de cotas’

meu deus!, e ele continua na janela olhando de través
vesgo   pangaré
andrejcaetano

segunda-feira, 6 de março de 2017

a mancha da tarde

sentei-me para ordenar as tarefas da tarde
e a primeira que me veio foi exatamente esta:
escrever um poema.
qualquer um!

manuel de barros adejou pelos desvãos da minha lógica
com seus sapos e pedaços de pau
e as personalidades dos rios e seus barrancos.
mas de nada adiantou.

poesias mais acadêmicas também sobrevoaram minha ótica.
inquietei-lhes a atitude com alguns poemas
de wislawa szymborska.
outra hora.

logo ali
o futuro do pretérito do trânsito paulistano
engarrafava poesias concretas.
mas nem me passou a idea de bebe-las.

lembrei-me então que eu bebera joão cabral.
isso porém não alterava minha condição
de temporário residente desta nau.
e agora?

preciso um poema
que não diga nada demais.
apenas manche esta tarde de palavras
e imprima nela a falta que ela não faz
andrejcaetano

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

adoro

adoro palavras ventanas com venezianas
adoro as cigarras fumando silêncio
esse zumbido etéreo das mielinas

o fim do mundo
adoro
pena que seja tão pegajoso

mas adoro apreciar o fim do mundo
como um filme
pipoca

Arequipa
deveria ter ido quando pude
que bom que não fui a Arequipa

vagalumes lumes vagando
adoro olhos faiscantes
ai...

            tem muito tempo que não olhos faiscantes
            tem muito tempo que faísco só
            meu território grilado

grilo galinha come
corações insetos
adoro
 Boo Hoi (foto)
andrejcaetano


sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

negro da terra

nasci assim mesmo
nem de pai nem de mãe
tupinambá guaianá guarani
preado preso livre
confuso
assim mesmo
nem de amor nem de afeto
mercantil
obrigado
cafuzo
um fato
uma peça
ninguém me teve tive ninguém
um absurdo
mas nasci assim mesmo
açucarado obscuro
vintém de padrinho abastado
a coisa entre a oferta e a procura
a carne do mercado
andrejcaetano

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

presépio foi seu feito último
seu nome espalhado na caatinga

beijo de língua
seus trinta anos atrás

há sazonalidade
onde havia sapos

outro bioma
         gerência de estepe
           andrejcaetano