segunda-feira, 24 de abril de 2017

fado

foi a digressão de uma mulher dirigida a um homem cego que disse:
‘meu amigo, o sexo oposto tu és’

e o moço, encantado com tamanha objetividade, propôs:
‘mudemos os planos cartesianos com plantinhas no parapeito da sacada de nosso lar

luzes quando escurecer! brincadeiras quando o breu se der!’
que ela replicou mansinha: ‘olha, o fado é que sofejará de longe o seu bafo de cotas’

meu deus!, e ele continua na janela olhando de través
vesgo   pangaré
andrejcaetano

segunda-feira, 6 de março de 2017

a mancha da tarde

sentei-me para ordenar as tarefas da tarde
e a primeira que me veio foi exatamente esta:
escrever um poema.
qualquer um!

manuel de barros adejou pelos desvãos da minha lógica
com seus sapos e pedaços de pau
e as personalidades dos rios e seus barrancos.
mas de nada adiantou.

poesias mais acadêmicas também sobrevoaram minha ótica.
inquietei-lhes a atitude com alguns poemas
de wislawa szymborska.
outra hora.

logo ali
o futuro do pretérito do trânsito paulistano
engarrafava poesias concretas.
mas nem me passou a idea de bebe-las.

lembrei-me então que eu bebera joão cabral.
isso porém não alterava minha condição
de temporário residente desta nau.
e agora?

preciso um poema
que não diga nada demais.
apenas manche esta tarde de palavras
e imprima nela a falta que ela não faz
andrejcaetano

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

adoro

adoro palavras ventanas com venezianas
adoro as cigarras fumando silêncio
esse zumbido etéreo das mielinas

o fim do mundo
adoro
pena que seja tão pegajoso

mas adoro apreciar o fim do mundo
como um filme
pipoca

Arequipa
deveria ter ido quando pude
que bom que não fui a Arequipa

vagalumes lumes vagando
adoro olhos faiscantes
ai...

            tem muito tempo que não olhos faiscantes
            tem muito tempo que faísco só
            meu território grilado

grilo galinha come
corações insetos
adoro
 Boo Hoi (foto)
andrejcaetano


sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

negro da terra

nasci assim mesmo
nem de pai nem de mãe
tupinambá guaianá guarani
preado preso livre
confuso
assim mesmo
nem de amor nem de afeto
mercantil
obrigado
cafuzo
um fato
uma peça
ninguém me teve tive ninguém
um absurdo
mas nasci assim mesmo
açucarado obscuro
vintém de padrinho abastado
a coisa entre a oferta e a procura
a carne do mercado
andrejcaetano

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

presépio foi seu feito último
seu nome espalhado na caatinga

beijo de língua
seus trinta anos atrás

há sazonalidade
onde havia sapos

outro bioma
         gerência de estepe
           andrejcaetano

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

uma hora

Meia hora eu pensava em
caruncho alicate absorvente
uma oração coordenada aditiva
o trem que ela perdeu
o transporte que não me levou
o retorno sem comitiva
meio tablete de alegria
pelúcia espirro alergia

Na meia hora seguinte eu pensava que
basta olhar um túmulo
um céu cheio de tucano estridente
um bando deles cruzando o rio
ou duzentos e nove grous
engrouvinhados pontificando um fio
que o corpo é um fim para encaixes
que as palavras faíscam do eu

E antes que a hora inteira soasse
eu tentava as coisinhas pequeninas
[fiapo de manga entredentes
bicicleta na orla do mar
picolé de cajá
dia que vai ser muito quente]
para que uma outra assim
nunca mais retornasse

andrejcaetano

sexta-feira, 24 de junho de 2016

moinhos da redenção


quando
ao escrever
ficava queria esperava fazer
sair a tristeza e a angústia paternal
cria que iria chorar ao tocar os lamentos
que descem pelo ladrão da lagoa dos dissabores

cria ser preciso chorar
para tornar-se rocha

os equívocos a aflição o vazio
não apareceram
sequer lacrimejei

não ornei-me rocha

está tudo aí:
os bem-te-vis predadores
e os horários marcados
andrejcaetano

sexta-feira, 13 de maio de 2016

recordação do país infantil

A estação da estrela d'alva. Uma lanterna de hotel. O mar cheiinho de siris.
Um camisolão. Conchas. 
Vamos à praia das Tartarugas! 
O menino foi pegado dando, atrás do monte de areia. 
O carro plecpleca nas ruas. 
O trem vai vendo o Brasil. 
O Brasil é uma República Federativa cheia de árvores e de gente dizendo adeus. 
Depois todos morrem. 
Oswald de Andrade